Sinto sem saber.


Não há tortura maior do que embriagar-se de saudade. Essa que entope o coração, que aperta a alma, que nos faz engasgar de palavras. Tenho saudade do que passou e ficou amassado dentro de mim. Do rascunho que fiz e que não deu tempo de passar a limpo. Dos costumes que eu tinha e hoje não passam de lembranças. Da minha falta de preocupação na minha infância.

Sinto falta de mim, da leveza que me levava fácil para lugares onde eu nunca fui. Sinto saudades do meu rosto cru e dos meus cabelos voando na direção contrária. Das coisas que eu acreditava e me traziam calmaria. Da fé que eu tinha sem saber o significado de sentir qualquer coisa parecida. Da minha ingenuidade de quando eu aceitava tudo sem reclamar de nada. Dos meus desejos simples e do meu fácil comodismo pelas coisas.

Hoje, eu costumo analisar demais, pensar antes de agir, comparar o antes com o agora. Se vem depressa ou se demora. E quando a saudade se mistura com a incerteza, vira uma grande angústia. A obrigação de ter paciência com as coisas me devora. Já não sei mais o que é certo ou o que é errado. O que me faz bem, o que me faz mal e o que não me faz absolutamente nada. Sei que, quem eu fui me mostra claramente quem eu sou. A diferença é o que eu sinto hoje, quando chega amanhã já se passou. 

Maíra Cintra

6 comentários:

Nayara Ferreira disse...

Texto perfeito. Me identifiquei bastante! Parabéns pelo blog, sou apaixonada pelos seus textos!
Um beijo e sucesso sempre!

http://nayaraoferreira.blogspot.com.br/

Marcia Fontes disse...

Amei o texto, como todos os outros. Vc escreve com a alma! Parabéns!

Sucesso!

Anônimo disse...

Que perfeito! Cada texto melhor que o outro. Parabéns, Maíra! Seus textos são sensacionais me identifico com muita coisa aqui. Já sou leitora assídua do blog.

Poeta da Colina disse...

Saudade só do que vai voltar, o resto é nostalgia.

Brunno Lopez disse...

Talvez essa sensação se retrate bem naquele pensamento de "a gente era feliz e não sabia". Esse conceito de felicidade já me chamou a atenção antes. Aquela coisa de não nos preocuparmos com determinado momento e depois, ao olharmos pra ele numa outra situação, parecia algo incrivelmente feliz e único.

Talvez seja uma maneira de crescer no planeta. Ser menos sensitivo e mais objetivo. Talvez não.
Mas a leitura valeu como sempre.

Vitor Costa disse...

Adorei e me identifiquei com o texto Maíra, suas palavras fluem como uma correnteza de sensações.

Sou um incurável saudosista e, como você, essa árdua obrigação de ter paciência me corrói, talvez a paciência que procuro não esteja aqui, perto do concreto, da fumaça, do conhecimento superficial, talvez ela esteja escondida nos mares, nos campos, nas sociedades ocultas e esteja esperando por mim, absoluta.

Eu seria muito grato se você pudesse me dar a honra de uma visita no meu recente blog:

http://leigopoeta.blogspot.com.br/

Espero que goste.